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Em menos de dois anos, MEC autoriza 77 novos cursos de medicina e mais de 4 mil vagas no país

 


Estudo da USP aponta crescimento acelerado e "irracional"; Brasil já é o segundo país com mais escolas médicas do mundo, atrás apenas da Índia


Em menos de dois anos, o Ministério da Educação (MEC) aprovou a abertura de 77 novos cursos de medicina no Brasil, que juntos passaram a ofertar 4.412 vagas de graduação. Os dados fazem parte de um estudo inédito da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI).

No mesmo período (janeiro de 2024 a setembro de 2025), outros 20 cursos de medicina já existentes foram autorizados a aumentar o número de vagas, somando mais 1.049. O total chega a 5.461 novas vagas autorizadas em menos de dois anos.

Brasil é segundo em número de escolas médicas

Com os novos cursos, o Brasil atingiu neste ano a marca de 494 faculdades de medicina. Desse total, 80% são privadas. O país conta agora com 50.974 vagas de graduação na área.

Com esses números, o Brasil se consolida como o segundo país do mundo com maior número de escolas médicas, perdendo apenas para a Índia, que tem cerca de 600 cursos – mas com uma população de mais de 1,4 bilhão de habitantes. O Brasil tem 213 milhões, segundo o IBGE.

Expansão vista como "irracional" por especialistas

O coordenador do estudo e professor da USP, Mario Scheffer, demonstrou preocupação com o ritmo da expansão.

"Causou-nos muito espanto tanto a quantidade de novos cursos quanto a autorização de mais vagas nos cursos antigos. Não há justificativa técnica ou evidências que justifiquem essa expansão", afirma.

Segundo Scheffer, nenhum país do mundo passou por uma expansão de vagas tão acelerada na última década quanto o Brasil. A partir do programa Mais Médicos, o número de vagas dobrou, passando de 23 mil em 2014 para mais de 50 mil em 2025.

A projeção é que, com o ritmo atual, o Brasil tenha 1,2 milhão de médicos em 2030 – o equivalente a 5,3 profissionais por mil habitantes, quase o dobro da taxa atual, de 2,98 por mil.

AMB e CFM criticam "crescimento irracional"

O presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), César Eduardo Fernandes, classificou o cenário como preocupante.

"É um crescimento irracional, absurdo e inaceitável, que ocorre de maneira desordenada, com condições precárias de formação. Não há campo de ensino prático adequado", afirma.

Segundo ele, o aumento de escolas privadas sem condições mínimas tem levado à formação de médicos de "segunda categoria", que hoje estariam alocados na atenção básica e em pronto-atendimentos.

Tanto a AMB quanto o Conselho Federal de Medicina (CFM) defendem que médicos recém-formados sejam aprovados em um exame de proficiência antes de começar a atender. Uma pesquisa Datafolha mostrou que 96% dos brasileiros apoiam a medida. Um projeto de lei nesse sentido tramita no Senado desde 2024.

O que diz o MEC

Em nota, o MEC informou que, desde 2013, a autorização de novos cursos de medicina é condicionada à aprovação em chamamento público, definido em conjunto com o Ministério da Saúde, com base na necessidade social e capacidade de instalação dos municípios.

A pasta afirmou ainda que, de 2023 a 2025, a abertura de cursos em instituições privadas ocorreu pelo "estrito cumprimento de decisões judiciais".

Para garantir a qualidade da formação médica, o MEC citou:

  • A criação do Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica), que será aplicado anualmente a partir de 2025

  • Visitas de avaliação in loco nas instituições de ensino em 2026

  • Atualização das diretrizes curriculares nacionais de medicina

Entre as medidas cautelares previstas estão:

  • Impedimento de ampliação de vagas

  • Suspensão de novos contratos do Fies

  • Suspensão da participação do curso no Prouni

  • Redução de vagas para ingresso

  • Suspensão de ingresso de novos estudantes

"É verdade que, com as novas diretrizes, os cursos passam a ter mais obrigações e os alunos também serão avaliados no quarto ano, antes do internato. Isso é muito importante, mas ainda não sabemos se haverá de fato fiscalização e fechamento de vagas em cursos mal avaliados", pondera Scheffer.

Onde os novos cursos estão concentrados

A região Nordeste lidera a abertura de novos cursos de medicina, com 29 autorizações (37,7% do total). Em seguida vêm:

RegiãoNovos cursosPercentual
Nordeste2937,7%
Sudeste1924,7%
Norte1316,9%
Sul1215,6%
Centro-Oeste45,2%

Os estados com mais novos cursos são:

  • Pará, Bahia e São Paulo – 8 novos cursos cada

  • Ceará e Maranhão – 7 novos cursos cada

Municípios com mais de um novo curso

Um dado que chama a atenção são municípios fora das capitais que receberam autorização para mais de uma nova faculdade de medicina:

MunicípioEstadoQuantidade de novos cursos
Vitória da ConquistaBA2
Luís Eduardo MagalhãesBA2
SobralCE2
TianguáCE2
CariacicaES2
São MateusES2
AriquemesRO2

A "galinha dos ovos de ouro" do setor privado

Segundo Mario Scheffer, não há evidências que justifiquem essa expansão acelerada. Para ele, a suspeita recai sobre lobbies diversos.

"Há uma conjunção de lobbies nesse mercado de educação médica. Esses cursos que parecem avulsos são incorporados imediatamente por grandes grupos. Viraram a galinha dos ovos de ouro", afirma.

O preço médio das mensalidades nas escolas médicas brasileiras é de **R10,2mil,comvariac\ca~odeR 5,1 mil a R$ 15,7 mil, dependendo da região e da instituição.

Processos ainda em análise

Além dos cursos já autorizados, há outros 150 processos com novos pedidos de abertura ainda em análise pelo MEC. Outros 75 pedidos foram indeferidos.

O MEC reforça que não recebe pedidos de autorização de curso de medicina fora do chamamento público, exceto nos casos decorrentes de determinação judicial.


Os dados foram solicitados ao MEC por meio da LAI (Lei de Acesso a Informação) pelo grupo de pesquisa Demografia Médica no Brasil, da FMUSP, que há 15 anos acompanha a oferta de médicos e de cursos de medicina. Parte deles não estava na base pública oficial do MEC (cadastro e-MEC).

Fonte: REDAÇÃO com informações da Folha de S.Paulo. 

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