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Insulina no fisiculturismo: por que atletas usam o hormônio e quais são os riscos

 


Prática é mais comum do que se imagina, mas especialistas alertam: aplicação sem indicação médica pode levar a hipoglicemia, coma e até morte

A insulina, hormônio que salva vidas de pessoas com diabetes, tem sido usada de forma clandestina por fisiculturistas saudáveis como recurso para ganhar massa muscular. A prática, que não é detectada por exames antidoping tradicionais, ganhou atenção após a morte do fisiculturista Gabriel Ganley, de 22 anos, encontrado morto em seu apartamento. A causa do óbito ainda é investigada, mas o atleta já havia relatado em redes sociais o uso de insulina e episódios anteriores de hipoglicemia.

Especialistas ouvidos pela reportagem explicam os mecanismos por trás do uso do hormônio, os perigos imediatos e os danos cardiovasculares a longo prazo — além de alertar que a prática é proibida e não tem qualquer respaldo médico.

Por que fisiculturistas usam insulina?

A lógica parte de uma característica real do hormônio: a insulina é um anabolizante. Dentro das células, ela bloqueia as vias catabólicas (degradação de proteínas) e estimula as vias anabólicas, incluindo a síntese de proteína muscular.

"A insulina é um anabolizante", resume o diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Clayton Macedo.

É por isso que, quando a diabetes tipo 1 está descompensada, o paciente perde peso e massa muscular. Ao repor o hormônio, ele recupera. No entanto, o endocrinologista faz uma ressalva essencial:

"Para quem tem deficiência e repõe doses corretas com critério, o remédio é seguro e até protetor. O problema aparece quando alguém sem deficiência alguma passa a usá-la."

O uso costuma ser associado à fase de "bulking" — em que o atleta busca ganho de volume. O protocolo subterrâneo inclui aplicação subcutânea de insulina de ação rápida acompanhada de consumo de açúcar antes ou depois do treino, para evitar quedas bruscas de glicose. É um equilíbrio instável e, segundo Macedo, sem qualquer base científica.

Quão comum é a prática?

Um estudo publicado em 2024 na revista Sports Medicine - Open, conduzido por pesquisadores da Itália e da Eslovênia com 92 fisiculturistas e 45 controles, ajuda a dimensionar o fenômeno:

  • 43% dos atletas avaliados admitiram usar hormônios com regularidade

  • Quase todos recorriam a esteroides anabolizantes

  • 30% combinavam esteroides com hormônio do crescimento

  • 38% combinavam esteroides com insulina

O risco agudo: hipoglicemia

O grande perigo imediato da insulina é o mesmo efeito que a torna útil na diabetes: ela baixa a glicose no sangue. Em quem não tem a doença, isso pode desencadear uma hipoglicemia severa.

O médico descreve a progressão:

Nível de glicemiaSintomas
Acima de 70 mg/dLNormal, sem sintomas
Queda para ~50 mg/dLCoração acelerado, tremores, sudorese (liberação de adrenalina)
Queda continuada (neuroglicopenia)Confusão mental, torpor, convulsões, coma
Casos gravesA pessoa pode "dormir e não acordar mais"

O risco se concentra em momentos de restrição alimentar — quando o atleta treina muito e come pouco.

Por que os exames antidoping não detectam?

A insulina recombinante usada por humanos é praticamente idêntica à produzida pelo próprio corpo e circula no sangue por apenas 5 a 10 minutos. Por isso, segundo o estudo europeu, escapa dos métodos laboratoriais tradicionais.

Pesquisadores tentam contornar esse ponto cego com marcadores indiretos: usuários de insulina e hormônio do crescimento apresentavam queda do colesterol HDL ("bom colesterol") e alterações em enzimas do fígado (ALT e AST), com uma razão elevada entre elas de forma característica.

O coquetel de riscos para o coração

O uso isolado de insulina raramente é o quadro completo. Na prática, ela entra em um coquetel com esteroides, estimulantes e diuréticos — e é o conjunto que mais preocupa.

Os efeitos combinados incluem:

  • Esteroides anabolizantes: reduzem o HDL, elevam o LDL e a pressão arterial, deixam o sangue mais espesso e propenso a trombose

  • Hipertrofia do coração: o coração, por ser músculo, também responde ao estímulo e pode crescer de forma prejudicial

  • Treino predominante de força: pouco exercício aeróbico não desenvolve a parte circulatória, agravando o cenário

"Mesmo que não use anabolizante, quem só faz treino resistido já tem aumento de risco cardiovascular", afirma Macedo.

Um coração hipertrofiado e sobrecarregado se torna terreno fértil para arritmias, que podem ser fatais quando combinadas a estimulantes adrenérgicos. O endocrinologista relata atender com frequência crescente pacientes que desenvolveram arritmias após o uso de esteroides — e observa que mortes súbitas em competições e treinos têm se tornado recorrentes.

Uma prática proibida e "subterrânea"

O uso de esteroides anabolizantes para fins estéticos ou de performance é proibido pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pela Anvisa. Para insulina, não há qualquer indicação em pessoas sem diabetes.

As doses praticadas, segundo Macedo, são "literalmente cavalares", e parte do material vem de produtos veterinários — mais fáceis de obter e mais potentes.

O médico faz um alerta final sobre o papel das redes sociais:

Atletas jovens, com boa aparência e grande alcance nas redes, projetam um padrão de corpo que é "inatingível fisiologicamente" sem o uso de substâncias — e que se popularizou mais rápido do que o conhecimento sobre seus riscos.


Fonte: Reportagem original com base em informações da SBEM e estudo científico

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