Carne bovina em supermercado Foto: Wilton Junior/Estadão
Decisão frustra expectativas do agronegócio nacional, que buscava nova rota de exportação após China impor cotas e tarifa adicional de 55%.
Porto velho - RO – Um revés nas negociações comerciais pegou o setor agropecuário brasileiro de surpresa. A Coreia do Sul cancelou as visitas técnicas que faria a frigoríficos de carne bovina do Brasil e adiou a decisão sobre a abertura do mercado sul-coreano para a proteína brasileira.
O anúncio representa um duro golpe nas expectativas do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que via no país asiático uma alternativa estratégica para escoar a produção bovina nacional – especialmente depois que a China, principal compradora da carne brasileira, endureceu as regras de importação no fim de 2025.
23.02.2026 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante a cerimônia de boas-vindas a Casa Azul, com o presidente da República da Coreia, Lee Jae-myung Foto: Ricardo Stuckert/PR
Entenda o contexto: a "tão sonhada auditoria"
Em fevereiro de 2026, o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, acompanhou o presidente Lula em uma visita oficial à Coreia do Sul. Na ocasião, Fávaro comemorou os avanços nas conversas e afirmou que o país asiático havia sinalizado positivamente para a realização de uma auditoria nas plantas frigoríficas brasileiras – um dos passos técnicos fundamentais antes da liberação das exportações.
A expectativa era de que a vistoria ocorresse ainda no primeiro semestre de 2026, abrindo caminho para que o Brasil pudesse enviar carne bovina a um dos mercados mais exigentes e rentáveis do mundo.
Com o cancelamento das visitas, não há nova data definida para a retomada do processo.
Por que a Coreia do Sul é tão importante?
A Coreia do Sul é um importador tradicional de carne bovina, com consumo consolidado e pagamento de preços premium. Para o Brasil, a entrada nesse mercado significaria:
Redução da dependência da China como único grande comprador
Aumento da receita cambial com vendas de maior valor agregado
Diversificação de risco geopolítico e comercial
Atualmente, a Coreia do Sul importa carne principalmente dos Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia. O Brasil tenta romper essa barreira há anos.
O fator China: a pressão que mudou o jogo
O adiamento sul-coreano ganha contornos ainda mais delicados quando se analisa o cenário chinês. Em dezembro de 2025, o governo chinês anunciou a adoção de medidas de salvaguarda contra a importação de carne bovina. Na prática, a China criou cotas específicas por país e impôs uma tarifa adicional de 55% para volumes que ultrapassarem o limite estabelecido.
Para o Brasil, maior fornecedor de carne bovina à China, a cota de exportação sem tarifas extras em 2026 é de 1,106 milhão de toneladas.
Na última segunda-feira (11), o Ministério do Comércio da China (MOFCOM) informou que as importações já haviam atingido 50% dessa cota no sábado (9). O alerta foi claro: quando a cota chegar a 100%, a sobretaxa de 55% será aplicada a partir do terceiro dia útil seguinte.
Impacto para o produtor brasileiro
Com a China impondo barreiras e a Coreia do Sul adiando a abertura, o produtor brasileiro enfrenta um cenário de incertezas. A falta de novos mercados pode levar a:
Excesso de oferta no mercado interno
Pressão de baixa sobre os preços da arroba
Redução da rentabilidade do setor
O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) ainda não se pronunciou oficialmente sobre o cancelamento das visitas sul-coreanas.
Resumo da situação em tópicos
| País | Ação | Impacto para o Brasil |
|---|---|---|
| Coreia do Sul | Cancelou vistorias e adiou abertura de mercado | Frustração de expectativa; novo mercado não virá no curto prazo |
| China | Impôs cota de 1,106 milhão de toneladas + tarifa extra de 55% após atingir o limite | Risco de sobretaxa já em 2026; necessidade de controlar volume exportado |
O que está em jogo
A diplomacia comercial brasileira trabalha em duas frentes:
Reativar as negociações com a Coreia do Sul e conseguir uma nova data para as auditorias.
Monitorar a cota da China para evitar a aplicação da tarifa adicional de 55%, que tornaria o produto brasileiro menos competitivo no maior mercado do mundo.
O governo Lula vê no mercado asiático uma prioridade, mas o cancelamento das vistorias na Coreia do Sul mostra que o caminho para a diversificação de destinos das exportações continua cheio de obstáculos.
Fonte: Estadão
Texto adaptado para nova matéria jornalística
Imagens: Ricardo Stuckert/PR (Lula e presidente sul-coreano); Wilton Junior/Estadão (carne em supermercado)

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