Oito casos foram confirmados e três crianças morreram; profissionais do EpiSUS atuam na busca ativa, coleta de exames e vacinação em aldeias de Roraima
Roraima – O Ministério da Saúde mobilizou, de forma emergencial, uma equipe multiprofissional para conter um surto de coqueluche no território Yanomami, em Roraima. A ação foi deflagrada após a confirmação de oito casos da doença na região, com três óbitos de crianças. Os profissionais chegaram ao Polo Base de Surucucu na segunda-feira (16) e atuam em conjunto com as equipes do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Yanomami .
A força-tarefa é composta por médico, enfermeiro, técnico de enfermagem e socorrista, além de especialistas do Programa de Treinamento em Epidemiologia Aplicada aos Serviços do SUS (EpiSUS) . O EpiSUS é um programa de formação em epidemiologia de campo, vinculado à Secretaria de Vigilância em Saúde, que capacita profissionais para atuar na investigação e resposta a surtos e emergências em saúde pública .
Busca ativa e vacinação
Ao todo, cerca de 50 profissionais estão mobilizados no território, realizando busca ativa por novos casos, coleta de material para análises clínicas e reforço da vacinação infantil em aldeias adjacentes a Surucucu . As crianças com diagnóstico confirmado foram levadas para hospitais em Boa Vista. Duas delas já receberam alta e retornaram para suas comunidades. Todos os pacientes com suspeita da doença e as pessoas que tiveram contato com os casos confirmados estão em tratamento e sob acompanhamento .
O falecimento das três crianças segue em investigação pelos órgãos competentes .
Cobertura vacinal em evolução, mas ainda abaixo do ideal
Dados do DSEI Yanomami mostram uma evolução expressiva na cobertura vacinal infantil nos últimos anos. Em 2022, apenas 29,8% das crianças com menos de um ano tinham o Esquema Vacinal Completo (EVC). Esse índice saltou para 57,8% em 2025. Entre as crianças menores de cinco anos, a cobertura passou de 52,9% para 73,5% no mesmo período .
Apesar do avanço, especialistas alertam que, para conter surtos de coqueluche, a taxa de vacinação precisa ser superior a 90% . Quanto menor a criança, maior o risco de incidência grave da doença. A coqueluche é uma infecção respiratória altamente contagiosa, causada por uma bactéria, e tem como principal característica crises de tosse seca, podendo causar danos à traqueia e brônquios .
Reforço na assistência e infraestrutura
O secretário de Saúde Indígena, Weibe Tapeba, atribuiu o avanço na cobertura vacinal e a capacidade de resposta rápida ao aumento da força de trabalho no território. Em 2023, o DSEI contava com 690 profissionais contratados. Desde então, mais 1.165 foram contratados, um crescimento de 169% .
"Mais profissionais de saúde mobilizados no distrito garantem a cobertura do atendimento diretamente nas aldeias e a ação rápida em situações como essas. Hoje, além das vacinas, podemos realizar testes e exames diretamente nos Polos Base", explicou .
Centro de Referência em Surucucu
Desde setembro de 2025, o território conta com o primeiro Centro de Referência em Saúde Indígena (CRSI Xapori Yanomami) do Brasil, localizado em Surucucu. A unidade recebeu investimento federal de cerca de R$ 29 milhões e tem capacidade para acolher cerca de 120 pacientes e acompanhantes, beneficiando diretamente aproximadamente 10 mil indígenas de 60 comunidades .
O centro oferece serviços de urgência e emergência, exames laboratoriais, raio-X, ultrassonografia e salas de estabilização, reduzindo a necessidade de remoções para centros urbanos distantes . A construção contou com o apoio da Central Única das Favelas (CUFA) e da ONG alemã Target Reudiger Nehberg .
Crise humanitária e contexto
A crise humanitária vivenciada pelos yanomamis, agravada pelo garimpo ilegal e pelo desmonte das políticas de saúde entre 2019 e 2022, tem sido marcada por altos índices de desnutrição, malária e outras doenças . Em 2024, o Ministério da Saúde registrou 33,3 mil casos de malária na terra yanomami, uma quantidade superior à própria população do território, que é de 27,1 mil indígenas, segundo o Censo de 2022 .
Desde o início da emergência em saúde pública, em 2023, o governo federal implementou ações para reestruturar a saúde indígena no local. Dados preliminares apontam para redução de 33% no número de óbitos no território, comparando o primeiro semestre de 2025 com o mesmo período de 2023 . As mortes por infecções respiratórias caíram 41%, e por desnutrição, 70% .
O surto de coqueluche, no entanto, acende um alerta para a necessidade de manter e ampliar os esforços de vacinação e vigilância em saúde, especialmente entre as crianças menores de cinco anos, as mais vulneráveis às formas graves da doença.

0 Comentários