Mercado apostou no contrário e agora teme reação do dólar, juros e Bolsa. Foto: Foto: Ricardo Stuckert
Analistas apontam que presidente terá de convencer sobre disposição de corrigir trajetória da dívida pública sem depender só de mais arrecadação
Porto Velho - RO – A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) neste domingo (25), no segundo turno das eleições, encontra o mercado financeiro posicionado para o resultado contrário. A partir desta segunda-feira (26), o presidente terá de responder à pergunta que marcou seu terceiro mandato: como estabilizar a dívida pública sem depender só de mais arrecadação? .
Para os analistas ouvidos pelo E-Investidor, o novo mandato começa com um teste de credibilidade. "Lula precisará convencer sobre a disposição de corrigir a trajetória atual", resume Milene Dellatore, sócia-diretora do Grupo Mide .
Um mercado no outro lado
Antes do segundo turno, o mercado atribuía cerca de 80% de chance de vitória ao senador Flávio Bolsonaro (PL), segundo o economista Bruno Corano, CEO da Corano Capital, embora as pesquisas indicassem empate técnico. A aposta apareceu nos preços depois do primeiro turno, quando Flávio teve 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula .
Naquele momento, o Ibovespa subiu 7,7% em um único pregão, o real se valorizou mais de 4% e os juros futuros chegaram a cair mais de 2 pontos percentuais em poucas semanas. Cerca de R$ 18,5 bilhões em capital estrangeiro entraram na Bolsa .
Na última semana antes da votação, quando Lula voltou a crescer nas pesquisas, a procura por proteção contra a alta do dólar chegou ao maior nível desde 2011 .
Esse posicionamento deve ser desfeito agora. "Há muito dinheiro posicionado nessa direção, o que torna a reação a uma reeleição de Lula mais abrupta", afirma Corano. Para ele, a correção tende a ser mais forte e mais rápida do que seria o ganho com a vitória do adversário. O câmbio e os juros longos reagem primeiro; Selic e inflação vêm depois e dependerão dos primeiros seis meses de governo .
O tamanho do problema fiscal
A dívida bruta chegou a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em agosto, o maior nível desde março de 2021, segundo o Banco Central. O que mais empurra esse número são os juros: em 12 meses, o governo gastou o equivalente a 8,86% do PIB só com o custo da dívida .
A lógica é simples. Com a Selic em 13,75% e a inflação em 4,58%, o juro real fica perto de 9% ao ano. Para a dívida parar de crescer, o governo precisaria arrecadar mais do que gasta, antes de pagar juros — o chamado superávit primário .
Nas contas de Corano, esse superávit teria de ficar em torno de 2% do PIB. Hoje, há um déficit de 0,62%, e o mercado ainda projeta déficit de 0,40% em 2027 .
"Com os juros nesse patamar, a dívida continua subindo enquanto o resultado primário não compensar parte relevante desse custo", explica Maria Carolina Luchesi, analista da Hike Capital. Corano projeta que a dívida se aproxime de 88% do PIB em 2027 .
Espaço de manobra estreito
Mais de 90% da despesa primária federal é obrigatória, como aposentadorias, benefícios sociais e salários. O próprio arcabouço fiscal do governo já acionou suas travas com o déficit de 2025, limitando a alta real da folha a 0,6% em 2027 e proibindo novos benefícios tributários .
Há ainda a conta do ano eleitoral: segundo Corano, as medidas anunciadas em 2026 exigirão pelo menos R$ 40 bilhões em ajustes no Orçamento de 2027 .
O principal nó é a política de ganho real do salário mínimo, mantida no projeto de Orçamento de 2027. Como aposentadorias e benefícios são atrelados ao piso, cada R 413,2 milhões por ano** .
O reajuste de R 1.741, eleva as despesas em **R 16,2 bilhões em 2027 .
"O desafio será demonstrar que existe disposição para revisar a dinâmica dos gastos, e não depender exclusivamente do crescimento econômico e de novas receitas tributárias", afirma Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos .
O plano de campanha
O plano de campanha não indica essa virada. Lula propõe manter o arcabouço e chegar a um superávit de cerca de 1,3% do PIB em 2030, com mais impostos sobre as rendas altas, ganho real do mínimo e mais investimento público .
Mesmo cumprida, a meta ficaria abaixo dos 2% que, segundo Corano, estabilizariam a dívida. "Lula precisaria apresentar logo no início do mandato um ajuste mais duro do que tudo o que mostrou até aqui", afirma .
O estudo da Genial Investimentos mostra o custo de não convencer. No cenário de ajuste lento, apoiado mais em receitas, a dívida chegaria a 98,1% do PIB em 2030 e a 107,2% em 2036, com Selic de dois dígitos e inflação estacionada no teto da meta. No cenário de ajuste crível, com corte inicial de 1,5 ponto do PIB, a dívida pararia de subir em 2029, em 89,5% .
Orçamento de 2027
Elaborado pela própria equipe de Lula, o Orçamento de 2027 já está no Congresso e deve ser votado até dezembro. Ele prevê superávit de **0,5% do PIB (R 2,58 trilhões e salário mínimo de R$ 1.741 .
O número que importa, porém, é outro. A meta é calculada com abatimentos permitidos em lei. Sem eles, o superávit projetado cai para R$ 18,6 bilhões, ou 0,13% do PIB .
"Cumprir formalmente uma meta e melhorar a trajetória da dívida são coisas que precisam ser avaliadas separadamente", alerta Dellatore .
Congresso mais à direita
Lula terá o Congresso mais adverso de seus mandatos. O PL, principal partido de oposição, elegeu 121 deputados, a maior bancada de um único partido desde 1990, contra 88 da federação PT-PCdoB-PV. No Senado, serão 28 senadores do PL e 9 do PT .
O problema é que as mudanças mais relevantes exigem quóruns altos. Uma lei complementar precisa de 257 deputados e 41 senadores. Uma emenda à Constituição, necessária para mexer em vinculações de gastos, exige 308 deputados e 49 senadores, em dois turnos em cada Casa .
Pelas contas da Genial, um bloco de partidos de direita reúne 286 deputados e 50 senadores, acima da maioria absoluta nas duas Casas. Na prática, qualquer medida fiscal relevante dependerá de acordos com União Progressista, PSD, Republicanos e MDB .
Bolsa, juros e dólar
O câmbio deve ser o primeiro a reagir. Corano projeta o dólar entre R 5,80 nas primeiras semanas, ante R 5,50 em 2027 enquanto não houver um plano fiscal crível .
Na Selic, ele vê alta probabilidade de o Comitê de Política Monetária (Copom) interromper os cortes em 4 de novembro, mantendo a taxa em 13,75%. Para o fim de 2027, trabalha com Selic entre 13% e 14%, sem descartar nova alta. A inflação ficaria acima de 4,8%, pressionada pelo dólar mais caro e pelo fim da escala 6x1 .
Na Bolsa, a correção deve atingir os setores que mais subiram depois do primeiro turno: bancos, estatais como Petrobras (PETR4) e Banco do Brasil (BBAS3), varejo e construção civil. Exportadoras e empresas com receita em dólar tendem a funcionar como proteção .
Na renda fixa, o pós-fixado é o grande vencedor no curto prazo. Prefixados e títulos longos atrelados à inflação devem perder valor de mercado, mas, depois da correção, os juros altos voltam a oferecer boas oportunidades para quem tem horizonte longo .
O quadro pode mudar se o governo surpreender. "A apresentação de uma equipe econômica consistente e de medidas concretas de controle das despesas poderia reduzir os juros futuros, aliviar a pressão cambial e favorecer a Bolsa", diz Lima .
O que observar até abril
4 de novembro: decisão do Copom sobre a Selic
Novembro e dezembro: definição da equipe econômica, posição sobre a meta fiscal e votação do Orçamento de 2027
5 de janeiro de 2027: posse presidencial
1º de fevereiro: posse do novo Congresso e eleição das presidências da Câmara e do Senado
Março: primeiro relatório bimestral de receitas e despesas, que indica se haverá bloqueio de gastos
Até 15 de abril: envio das diretrizes orçamentárias de 2028, com as metas fiscais do novo mandato
Para Luchesi, o sinal mais esperado é uma agenda de medidas sobre os gastos obrigatórios, com prazo de envio ao Congresso. Corano resume o desafio: "É convencer o mercado de que o quarto mandato será diferente do terceiro na questão fiscal. Os juros só caem de forma sustentável quando a dívida para de crescer" .
Fonte: E-Investidor / Estadão
Foto: Ricardo Stuckert


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