“Saí dos braços da minha mãe para realizar meu sonho”:
Atacante de 18 anos deixou o interior do Rio Grande do Norte ainda adolescente, superou desafios longe da família e hoje mira o título com o Brasil no Sul-Americano realizado no Paraguai.
Gisele, atacante da Seleção Sub-20, é a mais experiente do grupo comandado pela treinadora Camilla Orlando
Gisele, atacante da Seleção Sub-20, é a mais experiente do grupo comandado pela treinadora Camilla Orlando
Staff Images Woman / CBF
Sair de uma cidade pequena, com pouca estrutura para o futebol feminino, e atravessar o país ainda na adolescência poderia parecer um salto grande demais para muitos. Para Gisele, porém, foi apenas o primeiro passo de um sonho que começou em Santo Antônio, no interior do Rio Grande do Norte, e que levou a estar entre as convocadas da Seleção Brasileira Sub-20 no Sul-Americano, no Paraguai. Nordestina com orgulho e movida por um sonho que começou ainda na infância, Gisele precisou amadurecer para conquistar espaço no futebol.
"É uma cidade simples, com poucos habitantes e pouca visibilidade para o futebol feminino. Eu queria muito sair de lá para realizar meu sonho e o da minha família. Como mulher nordestina, vejo que sou uma inspiração para muitas meninas que querem jogar, mas não têm tanta condição de sair. Isso me dá força para continuar, porque sei que o futebol é complicado, ainda mais para quem mora no Nordeste", contou.
A decisão de deixar casa cedo exigiu maturidade. Largar a convivência diária com a mãe e os cinco irmãos não foi fácil. A base de Gisele foi na sua cidade em um projeto social comandado pelo treinador Wenderson Dantas, pessoa que iria se tornar alguém especial em sua trajetória. Foi lá onde tudo começou. Do futsal até migrar para o campo. A rotina era intensa: saía de casa pela manhã e só retornava à noite. Com o tempo, veio outra escolha: aos 14 anos, pediu para morar com o treinador, que também atuava no conselho tutelar e acolhia jovens, especialmente meninas que jogavam futebol na região.
Gisele durante preparação da Seleção Brasileira Sub-20 para enfrentar o Peru pela terceira rodada do Sul-Americano
Créditos: Staff Images Woman / CBF
"Saí de casa. Saí dos braços da minha mãe para ir atrás do que eu acreditava. Ele me deu a oportunidade de jogar e sempre me apoiou. Foi difícil para ela mas ele morava perto, então sempre que tinha tempo ia ficar com ela", explica.
A relação se transformou em laço familiar. "Hoje eu o chamo de pai. Não é de sangue, mas é de consideração. No começo eu tinha vergonha, mas ele me acolheu, me aconselhou e foi o apoio que eu precisava naquele momento.
O salto para o futebol de alto rendimento aconteceu quase por acaso. Gisele faria uma avaliação no Fluminense, mas como a data demorou para ser confirmada, surgiu a oportunidade no Grêmio. Aprovada no teste, aos 15 anos, atravessou o país rumo a Porto Alegre e o talento acelerou etapas.
"Com 16 anos eu me destaquei na Sub-17, subi para Sub-20 e para o profissional com 16 anos. As meninas do profissional me passavam muita confiança. Eu pegava aquilo como experiência e levava para os outros times. Continuava a ajudar nas categorias de base. Foi muito importante para a minha carreira".
Gisele comemora com as companheiras gol marcado na vitória por 5 a 0 contra a Bolívia
Créditos: Staff Images Woman / CBF
Convocação e novos horizontes
A primeira convocação para a Seleção Brasileira Sub-20 trouxe a mistura de emoção e responsabilidade típica de quem vê a vida mudar de repente. "Fiquei muito feliz e realizada. Saber que teria o apoio da minha família, do meu pai e das companheiras de clube foi especial", celebra.
O começo foi desafiador, principalmente pela convivência com jogadoras mais experientes, mas também transformador. Competições que antes pareciam distantes começaram a se tornar realidade. Gisele foi convocada para a Copa do Mundo Sub-20 na Colômbia. "Peguei tudo de bom para mim. Era um grupo que parecia uma família, todo mundo se ajudava. Muitas meninas sonham em jogar uma Copa do Mundo. Só de estar ali já era mais um sonho realizado".
Hoje, Gisele se enxerga em uma nova fase da carreira. No atual ciclo da Seleção, é referência e uma das mais experientes do grupo. "Amadureci muito. Sou uma das mais experientes e trago o que aprendi para ajudar as mais novas. É desafiador, mas estou muito feliz", comemora.
A camisa 7 da Seleção agora foca em ajudar a equipe para enfrentar o Peru pela sequência do Sul-Americano. A partida está marcada para esta quarta-feira (11), às 18h (de Brasília), no Estádio Luís Alfonso Giagni, e pode encaminhar a classificação brasileira para a próxima fase. Nesta competição ela afirma que prefere pensar passo a passo mas com muita vontade de vencer. "Espero muita entrega. A gente precisa ir degrau por degrau, porque tenho certeza de que podemos conquistar esse título. Trabalhamos na chuva, no sol, no calor. Quem trabalha, Deus ajuda."

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