No Dia da Consciência Negra, análise da maior chacina do país revela como racismo estrutural direciona a letalidade policial contra populações negras e pobres.
Dia da Consciência Negra coloca em foco herança escravocrata e violência policial
*Parentes de vítimas no IML do Rio após operação que matou 117 pessoas — Foto: Joédson Alves/Agência Brasil*
No Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, especialistas em segurança pública e direitos humanos trazem um recorte urgente: a violência policial em favelas é herança direta de um passado colonial que normaliza a morte de negros. A Operação Contenção, que matou 121 pessoas em outubro no Rio, é apontada como o exemplo mais recente desse legado.
A ação, considerada a maior chacina da história do Brasil, ocorreu nos complexos da Penha e do Alemão – onde 79% da população é negra. Nenhuma das 117 vítimas civis havia sido denunciada pelo Ministério Público, e o alvo principal, o suposto líder do Comando Vermelho, segue livre.
Racismo Estrutural: Do Período Colonial às Favelas
Para o economista Daniel Cerqueira, coordenador do Atlas da Violência (Ipea), a data deve servir para discutir operações policiais. “A gente vive um legado muito forte das instituições do período colonial”, afirma, lembrando que a exploração escravocrata se baseou na violência.
“Seria impossível imaginar uma operação como essa em Copacabana ou Ipanema. Essa ‘guerra às drogas’ só acontece onde moram negros e pobres”, destaca Cerqueira.
Os números comprovam: a chance de uma pessoa negra ser assassinada no Brasil é quase três vezes maior que a de uma branca.
Estado Ausente em Direitos, Presente na Repressão
A advogada Raquel Guerra (UERJ) ressalta que a escravidão, que durou mais de 300 anos, não foi seguida por políticas de reparação. “A presença do Estado para a população negra sempre foi a da não promoção de direitos”.
A promotora Lívia Sant’Anna (MP-BA) reforça que o 20 de novembro “é um marco de denúncia”. Para ela, operações como a Contenção mostram uma política de segurança que normaliza a letalidade como método, onde o Estado só aparece “em ocasiões coléricas”.
Impactos Sociais e Econômicos da Violência
A violência tem consequências de longo prazo, alerta a professora Juliana Kaizer (UFRJ/PUC-Rio). Operações policiais fecham escolas e interrompem rotinas, aumentando o risco de evasão escolar.
“O impacto é socioeconômico. Seguiremos com gerações de analfabetos funcionais, que não se inserirão no mercado formal”, explica. “Querem resolver segurança olhando o sintoma, não a causa”.
Milícia x Tráfico: Duplo Padrão Policial
Dados do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (UFF) mostram um desequilíbrio na atuação policial. Entre 2017 e 2023, mais de 70% das áreas de facção registraram confrontos, contra apenas 31,6% nas regiões de milícia.
A diferença é ainda maior em tiroteios: 40,2% ocorreram em áreas de tráfico, enquanto apenas 4,3% em áreas de milícia – dez vezes menos.
Neste Dia da Consciência Negra, a reflexão que fica é sobre como o racismo estrutural continua moldando políticas de segurança que tratam vidas negras como descartáveis, perpetuando um ciclo de violência com profundas raízes históricas.
Com informações da Agência Brasil

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