O Brasil está à beira de se tornar um narcoestado?© Reuters
Porto Velho, RO – O aumento da violência e a influência crescente das facções criminosas em diversas regiões do país levantaram um debate delicado: o Brasil estaria a caminho de se tornar um “narcoestado”?
A expressão, que tem ganhado força nas redes sociais e entre comentaristas políticos, reflete a preocupação com episódios recentes que abalaram o país em 2025: o assassinato de um ex-delegado em São Paulo, a morte de um delator do PCC, o avanço de facções sobre comunidades no Ceará e a expansão dos negócios do crime na chamada “Faria Lima”, em São Paulo.
Apesar das inquietações, especialistas em segurança pública e sociologia ouvidos por diferentes veículos apontam que o termo “narcoestado” não se aplica ao Brasil.
O que é um narcoestado — e por que o Brasil não se encaixa nessa definição
O conceito de “narcoestado” descreve uma nação em que o próprio governo é capturado pelos interesses do narcotráfico, utilizando a máquina pública para proteger ou expandir o comércio de drogas.
Segundo o pesquisador norte-americano Benjamin Lessing, da Universidade de Chicago, essa realidade não corresponde ao Brasil. “É um exagero. O Estado brasileiro não está engajado diretamente no tráfico de drogas, como ocorre em casos históricos, como o Panamá de Manuel Noriega ou, em parte, na Venezuela”, explicou.
Para ele, o Brasil vive uma situação complexa, onde o crime organizado se fortalece e coexiste com o Estado, mas não o substitui. “São duas forças que dividem o poder de coerção em certos territórios”, acrescenta.
Coexistência e expansão das facções
Pesquisadores descrevem essa dinâmica como uma “governança criminal” — modelo em que facções exercem controle sobre comunidades, impondo regras e administrando conflitos, como se fossem uma autoridade paralela.
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o crime organizado movimenta cerca de R$ 348 bilhões por ano, sendo que apenas uma pequena parte — em torno de R$ 15 bilhões — vem do tráfico de drogas.
O restante está distribuído em crimes virtuais, fraudes, roubos e até negócios legais usados para lavar dinheiro.
O estudo também aponta que 31 milhões de brasileiros vivem em áreas sob domínio de facções, número que representa 19% da população — o maior índice da América Latina.
Um poder que se reinventa
O sociólogo Eduardo Dyna, pesquisador da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), explica que o Primeiro Comando da Capital (PCC) passou a combinar duas frentes de atuação:
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um braço “comunitário”, que impõe regras e controla o comportamento nas periferias paulistas;
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e um braço empresarial, ligado a operações financeiras e investimentos ilegais de alto valor.
“O PCC acumulou muito capital e se internacionalizou. Hoje atua de forma diferente conforme a região e os interesses locais”, afirma Dyna.
Já o Comando Vermelho (CV), surgido nos presídios do Rio de Janeiro, expandiu-se para além do Sudeste e consolidou alianças com grupos de outras regiões, como o Norte e o Nordeste, buscando rotas de tráfico e exploração de recursos ilegais, incluindo garimpo e extração de madeira.
Do garimpo ao transporte público: o crime diversificado
Para o sociólogo Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo, membro do FBSP e professor da PUCRS, as facções ampliaram seus negócios e penetraram em setores legais da economia.
“Elas passaram a atuar em áreas como o garimpo, a ocupação de terras, a extração ilegal de madeira, a coleta de lixo e até o transporte público”, afirma.
Segundo ele, há casos em que grupos criminosos influenciam diretamente campanhas eleitorais e decisões políticas locais, o que aumenta o risco de corrupção e cooptação de agentes públicos.
Um “narcoestado difuso”
Mesmo sem controle sobre as instituições federais, Azevedo acredita que há sinais de um “narcoestado difuso” em algumas regiões do país, onde o crime interfere nas eleições e no poder municipal.
“O Rio de Janeiro é o exemplo mais evidente, com o crime organizado ditando regras e influenciando a política local”, pontua.
Fatores que explicam o avanço
Os pesquisadores apontam que o encarceramento em massa e a ausência do Estado em áreas vulneráveis foram determinantes para o fortalecimento das facções.
Muitos desses grupos surgiram dentro dos presídios, como o CV, nos anos 1970, e o PCC, em 1993, em São Paulo.
“Quando líderes de facções foram transferidos entre estados e presídios federais, acabaram disseminando suas redes”, explica Lessing.
Nas ruas, o domínio prosperou onde o Estado é fraco em políticas sociais, mas forte em repressão.
Termos perigosos e o debate político
Para o coordenador do Núcleo de Estudos da Violência da USP, Sérgio Adorno, usar expressões como “narcoestado” ou “narcoterrorismo” pode ser perigoso.
“Esses termos transformam um problema social em um problema militar. E isso pode justificar ações de guerra dentro das cidades”, alerta.
O analista político João Paulo Charleaux faz um alerta semelhante: “Quando se fala em guerra, transmite-se à polícia a ideia de que tudo é permitido, e isso pode ampliar a violência institucional”.
Conclusão
Especialistas concordam que o Brasil vive um cenário alarmante de fortalecimento das facções criminosas, que hoje exercem poder territorial, político e econômico sem precedentes.
Entretanto, afirmar que o país se tornou — ou está prestes a se tornar — um narcoestado ainda é um exagero.
O desafio, segundo os pesquisadores, é reconstruir a presença do Estado em áreas dominadas pelo crime, com políticas de segurança pública, educação e inclusão social, antes que o “poder paralelo” se torne uma realidade irreversível.
Fontes: Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), Universidade de Chicago, UFSCar, PUCRS e USP, BBC News Brasil
Redação: Rondonia na Rede
Publicado em: 11 de novembro de 2025

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