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Lula sobe tom, critica protecionismo e propõe comércio sem dólar às vésperas de reunião com Trump


Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, com o presidente da Indonésia, Prabowo Subianto, durante cerimônia oficial de chegada ao Palácio Merdeka. Palácio Merdeka – Jacarta (Indonésia) Foto: Ricardo Stuckert

ENVIADO ESPECIAL A JACARTA - Às vésperas de uma reunião com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, planejada para ocorrer na Malásia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a subir o tom nesta quinta-feira, dia 23, com críticas ao protecionismo, a uma nova Guerra Fria e propôs comércio em moeda nacional com a Indonésia, uma alternativa ao dólar americano. Lula afirmou que os países não podem ser “dependentes de ninguém”.

“A decisão brasileira de reforçar nossa cooperação com a Indonésia e com o Sudeste Asiático não poderia ser mais acertada”, afirmou o presidente, que escreveu um artigo no jornal local The Jakarta Post, sobre a aproximação do Brasil com o bloco.

Segundo dados do governo brasileiro, a corrente de comércio com a Asean atingiu US$ 37 bilhões em 2024, pouco menos do que o Mercosul, mas com um superávit de US$ 15 bilhões, pautado sobretudo em commodities e produtos agrícolas.

Lula fez um pronunciamento público no Palácio Presidencial Merdeka, em Jacarta, ao lado do presidente Prabowo Subianto, depois de almoço com o anfitrião e reuniões privada e ampliada, com equipes ministeriais e empresários. Lula levou à mesa os donos da J&F, Joesley e Wesley Batista. Entre as empresas do grupo, está a JBS, maior empresa de proteína animal do mundo.

O indonésio disse que o encontro foi “intenso e produtivo” e que considera os países como duas potências econômicas emergentes em ascensão.
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, com o presidente da Indonésia, Prabowo Subianto, durante cerimônia oficial de chegada ao Palácio Merdeka. Palácio Merdeka – Jacarta (Indonésia) Foto: Ricardo Stuckert



O presidente citou a simbologia da Indonésia, que em 1955 abrigou a Conferência de Bandung, quando países asiáticos e africanos lançaram as bases de uma nova inserção internacional, baseada na autodeterminação e na não interferência externa, em um movimento pós-colonial.

“O que está acontecendo nesse momento na política e na economia demonstra que, cada vez mais, nós precisamos discutir as similaridades que existem entre os nossos dois países para que a gente possa, cada vez mais, fazer crescer a nossa relação comercial, a nossa relação científica e tecnológica, a nossa relação cultural, a nossa relação política, para que, cada vez mais, a gente seja menos dependente”, afirmou Lula.


A viagem do petista à Ásia, a terceira no ano, tem como pano de fundo o tarifaço de Trump e uma busca de parceiros comerciais alternativos e de equilíbrio para evitar excesso de dependência comercial, seja dos EUA, seja da China. A estratégia traçada no Palácio do Planalto tenta reforçar a posição brasileira de equidistância e não alinhamento automático a potências estrangeiras.

“Nós queremos multilateralismo e não unilateralismo. Nós queremos democracia comercial e não protecionismo”, afirmou o brasileiro. “No atual cenário de acirramento do protecionismo, nossos países têm plenas condições de mostrar ao mundo a capacidade de defender interesses econômicos com diálogo e respeito mútuo.”

Indonésia e Brasil compartilham o compromisso com a paz, com o desenvolvimento sustentável e com a promoção de uma ordem internacional mais justa.

Nossos governos estão unidos contra o genocídio em Gaza e continuarão a defender a solução de Dois Estados como o único caminho possível para a paz no Oriente Médio.


O presidente citou que ambos os líderes apoiam o comércio baseado em regras e centrado na Organização Mundial do Comércio e que coindicem a respeito do Brics como “plataforma de defesa dos interesses de desenvolvimento do Sul Global”. Lula disse ser favorável ao ingresso da Indonésia como membro do Novo Banco de Desenvolvimento.

Acordos e Gaza


Os dois governos assinaram acordos nas áreas de estatística, agricultura, energia, ciência e tecnologia e promoção comercial.

Os presidentes decidiram avançar nas negociações para concluir até o final do ano um Acordo de Comércio Preferencial entre o Mercosul e a Indonésia.

Ambos citaram a guerra na Faixa de Gaza. A Indonésia tem sido ator ativo nas discussões, sendo o país com maior população muçulmana do mundo.

“Indonésia e Brasil compartilham o compromisso com a paz, com o desenvolvimento sustentável e com a promoção de uma ordem internacional mais justa. Nossos governos estão unidos contra o genocídio em Gaza e continuarão a defender a solução de Dois Estados como o único caminho possível para a paz no Oriente Médio”, disse Lula.

Clima


Dias depois de a Petrobras receber aval do Ibama para perfuração de petróleo da Foz do Amazonas, uma decisão com incentivo político do governo, Lula voltou a dizer que "não há desenvolvimento sustentável sem superar a fome e a pobreza". A autorização foi duramente criticada por ambientalistas, às vésperas da COP-30, como um sinal na contração do acordo de reduzir a dependência de combustíveis fósseis.

O presidente disse que ele e Subianto concordaram “quanto à urgência de agirmos com determinação para vencer a crise climática” e que os países “trabalharão juntos para uma transição energética justa, rumo a economias menos poluentes e mais sustentáveis, sem prescindir da geração de empregos de qualidade e da redução das desigualdades”.

“Estamos entre os maiores países detentores de floresta tropicais e com maior biodiversidade do mundo. Também somos grandes produtores de biocombustíveis, que terão papel fundamental a desempenhar na transição para economias de baixo carbono”, disse Lula.







Fonte: Reprodução da matéria de Felipe Frazão - Estadão

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