O presidente dos EUA, Donald Trump, aponta o dedo durante uma reunião de gabinete na Sala do Gabinete da Casa Branca, em Washington, DC, EUA, em 27 de maio de 2026 — Foto: REUTERS/Evan Vucci
Documento do USTR lista exceções que incluem produtos agropecuários, fertilizantes, medicamentos e componentes de aeronaves; medida ainda passará por audiências públicas
O governo dos Estados Unidos propôs uma tarifa de 25% sobre mercadorias brasileiras, mas uma série de produtos considerados estratégicos para o Brasil ficará de fora da taxação. A lista de exceções foi divulgada na noite de segunda-feira (1º) pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR).
Entre os produtos brasileiros que não sofrerão a sobretaxa estão carnes, café, frutas, minérios, componentes de aeronaves, medicamentos e fertilizantes. A medida ainda passará por um período de consultas públicas antes de ser aplicada definitivamente.
Por que os EUA querem taxar o Brasil?
A investigação que levou à proposta de tarifa foi aberta em 15 de julho de 2025, por determinação do presidente Donald Trump, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Segundo o documento final do USTR, o governo brasileiro adota práticas consideradas "irrazoáveis" que "oneram ou restringem" o comércio norte-americano.
Entre os pontos criticados pelos americanos estão:
O sistema de pagamentos PIX, que supostamente favoreceria soluções locais em detrimento de concorrentes dos EUA
Regulação de redes sociais, com ordens judiciais para remoção de conteúdos
Acordos comerciais do Brasil com México e Índia, que dariam vantagens a esses países
Falhas no combate ao desmatamento ilegal
Barreiras ao etanol americano
Lentidão na análise de patentes, especialmente na área biofarmacêutica
Anulação de processos da Lava Jato e queda do Brasil no Índice de Percepção da Corrupção
Quais produtos ficarão de fora da tarifa?
O documento do USTR lista uma série de exceções à tarifa de 25%. Veja os principais grupos:
🥩 Alimentos e bebidas
Carnes: cortes frescos, refrigerados ou congelados de carne bovina (com ou sem osso, incluindo carcaças e cortes de alta qualidade), miúdos, carne enlatada, carne seca e defumada
Café e chás: grãos torrados ou não, descafeinados ou não; chá verde, chá preto e erva-mate
Cacau e chocolate: grãos, cascas, pasta, manteiga e pó de cacau sem açúcar
Frutas: tomates, cocos, bananas, abacaxis, abacates, mangas, laranjas, limões, papaias, kiwis
Raízes e tubérculos: mandioca (fresca, congelada ou seca), taro, araruta
Cogumelos: orelha-de-pau e shiitake secos
Especiarias: pimenta, baunilha, canela, cravo, noz-moscada, gengibre, açafrão e cúrcuma
Produtos processados: amido de mandioca, tapioca, sucos de laranja, limão, abacaxi e açaí, além de preparações de açaí
🛢️ Minérios, metais e energia
Minérios: ferro, manganês, cobre, níquel, cobalto, alumínio, zinco, estanho, cromo, tungstênio, urânio, titânio e prata
Minerais: grafite natural, caulim, fosfatos, barita, magnésita e amianto
Combustíveis: carvão mineral, coque, óleos de petróleo (crus e refinados), querosene, lubrificantes, GNL, propano, butano e até energia elétrica
💊 Produtos químicos, fertilizantes e medicamentos
Fertilizantes: ureia, sulfato de amônio, nitrato de sódio, cloreto de potássio e fertilizantes fosfatados
Medicamentos e insumos de saúde: vacinas (humanas e veterinárias), sangue humano, antissoros, antibióticos (penicilinas, estreptomicinas, tetraciclinas), hormônios (insulina, cortisona, estrogênios), vitaminas, contraceptivos químicos e kits de ensaios clínicos
Químicos industriais: iodo, silício, arsênio, selênio, óxidos de zinco e titânio
✈️ Setor aeroespacial e outros itens industriais
Motores e peças: motores de pistão, turbojatos, turbopropulsores e suas partes
Componentes de voo: hélices, rotores, trens de pouso e fuselagens
Equipamentos internos: assentos de aeronaves, caixas-pretas (gravadores de dados de voo) e instrumentos de navegação
Materiais específicos para aviação: tubos de plástico, pneus de borracha, juntas de vedação e vidros de segurança laminados
Madeira: teca, mogno, balsa e virola (em toras ou serradas)
Papel e celulose: polpa de madeira química e diversos produtos de papel
Metais preciosos: ouro, prata e platina
Tecnologia: máquinas para fabricação de semicondutores, circuitos integrados e processadores
Próximos passos e prazos
Antes de aplicar qualquer tarifa, o governo americano realizará um processo de consultas públicas. O cronograma prevê:
Até 22 de junho de 2026: prazo para solicitar participação em audiência pública
Até 1º de julho de 2026: envio de comentários por escrito sobre as medidas propostas
6 de julho de 2026: audiência pública oficial do USTR
15 de julho de 2026: data limite para a definição e aplicação das medidas contra o Brasil
O que está em jogo
O governo brasileiro, por meio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tentou evitar a aplicação das tarifas. Houve reuniões entre as equipes dos dois países, mas, segundo informações do blog do Valdo Cruz, não houve avanços suficientes para encerrar as negociações dentro do prazo.
A decisão americana frustra os planos de Lula de uma nova conversa com Trump para evitar retaliações financeiras, especialmente em um momento em que os EUA ameaçam classificar facções criminosas brasileiras (PCC e CV) como grupos terroristas.
Do lado americano, o representante comercial Jamieson Greer afirmou que o diálogo com o Brasil foi "construtivo", mas que ainda existem "divergências substanciais" entre os dois países.
Fonte: G1 — São Paulo

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