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CNJ abre investigação contra desembargador que absolveu homem por estupro de vulnerável em MG

Corregedoria quer esclarecimentos sobre decisão que inocentou réu de 35 anos acusado de manter relação com menina de 12; ministérios e parlamentares repudiam sentença.

Brasília – O corregedor nacional de Justiça, ministro Mauro Campbell Marques, determinou a abertura de um Pedido de Providências para investigar a atuação do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) e do desembargador Magid Nauef Láuar. A medida, anunciada no último sábado (21), foi tomada de ofício e visa apurar a decisão da 9ª Câmara Criminal do TJMG que absolveu um homem de 35 anos acusado de estupro de vulnerável contra uma criança de 12 anos .

O caso ocorreu no município de Indianópolis, no Triângulo Mineiro. Em novembro de 2025, a 1ª Vara Criminal de Araguari havia condenado o réu a nove anos e quatro meses de prisão. No entanto, em fevereiro deste ano, o desembargador relator entendeu que o relacionamento entre o acusado e a vítima era um "vínculo afetivo consensual" e que havia "anuência dos genitores", resultando na absolvição .

A decisão gerou forte reação da opinião pública e de autoridades. O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) informou que estuda os recursos cabíveis, e o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) agora atua para esclarecer os fatos. O prazo para que o TJMG e o desembargador prestem informações é de cinco dias. Por envolver uma menor de idade, o procedimento corre em sigilo .

Repercussão nacional

A sentença da 9ª Câmara Criminal também provocou manifestações de diversos setores. Os ministérios dos Direitos Humanos e da Cidadania e das Mulheres divulgaram nota conjunta repudiando o entendimento do tribunal. As pastas destacaram que a decisão fragiliza a proteção integral prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e na Constituição Federal .

"No Brasil, a conjunção carnal ou a prática de atos libidinosos com menor de 14 anos configura estupro de vulnerável, de acordo com o Código Penal. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (STJ), consolidada na Súmula 593, é clara ao estabelecer que o consentimento da vítima ou a existência de relacionamento amoroso não afastam a ocorrência do crime", reforçaram os ministérios em nota .

Parlamentares de diferentes espectros políticos também condenaram a decisão. A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) protocolou denúncia no CNJ, classificando a sentença como um "precedente perigoso" que "normaliza o abuso". Pelo PL, o deputado Nikolas Ferreira (MG) afirmou que "a lei é objetiva" e que o acusado deveria ter sido punido .

Entenda o caso

De acordo com as investigações, o homem, que já tinha passagens por homicídio e tráfico de drogas, mantinha um relacionamento com a menina, que chegou a abandonar os estudos e vivia com ele com a autorização da mãe. A mãe da vítima também foi absolvida pelo TJMG, após ter sido condenada em primeira instância por conivência com o crime .

O desembargador Magid Nauef Láuar, relator do caso, justificou a absolvição alegando que a relação não decorreu de violência ou coação, mas de um "vínculo afetivo consensual" e que a punição configuraria uma "ingerência estatal desproporcional em uma realidade familiar consolidada" .

A defensora dos direitos humanos e ex-secretária nacional dos Direitos da Criança, Ariel de Castro Alves, alertou que esse tipo de entendimento abre precedentes perigosos. "Há uma resistência de parte do Judiciário em aplicar a lei. Isso acaba legitimando a violência sexual contra crianças e adolescentes, que é um dos problemas mais graves do Brasil", afirmou em entrevista à Agência Brasil .

Novas denúncias

Paralelamente à investigação do CNJ sobre a decisão judicial, novas informações surgiram nesta segunda-feira (23). As deputadas estaduais e federais Bella Gonçalves (PSOL-MG) e Duda Salabert (PDT-MG) divulgaram ter recebido denúncias de que o desembargador Magid Nauef Láuar teria cometido abusos sexuais contra adolescentes. O Tribunal de Justiça de Minas Gerais informou que já instaurou procedimento administrativo para apurar as denúncias .

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